domingo, 24 de novembro de 2013

MOBILIDADE GRANDE RECIFE - BACURAU E A VELHA HISTORIA DOS TRABALHADORES E SUA VIDA.

Ônibus "bacuraus" acumulam quilômetros de histórias nas noites do Recife


Créditos: Paulo Paiva/Diário de Pernambuco

Na madrugada do Recife, o terminal de ônibus do Cais de Santa Rita, no bairro de São José, pulsa como um coração acelerado. É de lá que saem as 43 linhas de coletivos que circulam na Região Metropolitana do Recife (RMR), conhecidos como bacurau. De 0h às 4h, o movimento de pessoas dentro e fora do terminal impressiona quem passa por lá. Usuários de diferentes bairros da Região Metropolitana do Recife (RMR), por algumas horas, respiram o mesmo ar. Têm o mesmo desejo. Chegar em casa depois de um dia de trabalho ou de uma noite de diversão. O auxiliar de cozinha Rosivaldo Facundo, 31 anos, faz parte do universo de mais de 5.360 pessoas que fazem uso do ônibus na madrugada para voltar ao lar. “Todos os dias pego meu bacurau depois de esperar um bocado. É o único jeito da gente (sic) chegar em casa sem ser de táxi, o que ficaria muito caro”, comenta Rosivaldo.


Nas primeiras horas da última quarta-feira, o Cais de Santa Rita tinha ares de festa. Além das centenas de trabalhadores que aguardavam suas conduções, o terminal abrigava ainda o público que voltava do Pátio de São Pedro, após o final do evento Terça Negra. Caldinho de feijão, mingau de cachorro, cafezinho e latão de cerveja estão entre os produtos mais consumidos pelos passageiros das linhas da madrugada. Para orientar os passageiros e garantir a segurança de quem utiliza os coletivos na madrugada, fiscais, seguranças de uma empresa privada e policiais militares ficam de prontidão até o dia amanhecer. “Aqui dentro não tem problema, mas quem sai do terminal corre um risco grande de ser assaltado e até espancado”, disse um motorista, em reserva.



Rosivaldo Facundo conta que quando utiliza o coletivo aos sábados ou domingos, é frequente a presença de pessoas embriagadas durante a viagem. Apesar de o horário ser considerado perigoso por muitos passageiros, o auxiliar de cozinha diz que nunca foi assaltado na volta para casa. “Uma situação engraçada aconteceu na semana passada. Peguei o ônibus às 2h no Cais de Santa Rita e dormi. Acabei passando da minha parada e fui bater no Terminal de Xambá. Na volta, peguei no sono novamente e voltei para o Cais de Santa Rita. Acabei chegando em casa às 5h”, conta Rosivaldo, que viaja todos os dias na linha Águas Compridas, uma das que tem maior movimento no horário.


Sorridente e falante, a auxiliar de cozinha Cícera Maria da Silva, 36, já subiu no ônibus que iria para Monsenhor Fabrício cumprimentando o motorista e o cobrador. A saudação também foi estendida a outros dois passageiros que seguiram no mesmo coletivo. A linha, geralmente, tem um movimento fraco na madrugada. “Como largo muito tarde do trabalho, tenho que recorrer ao bacurau para chegar em casa. Aqui a gente acaba fazendo amizades. O motorista já sabe as paradas onde todo mundo desce e, no meu caso, ele ainda para o ônibus perto da minha casa para eu não andar muito sozinha”, revela Cícera. A garçonete Cláudia Lúcia, 28, era uma entre os três passageiros que seguiam num ônibus que deixou o Cais de Santa Rita às 2h da quarta-feira. Como forma de proteção, as duas mulheres e um homem que voltavam para casa estavam sentados em cadeiras uma atrás da outra. 




Medo
O bartender Isllan Rodrigues, 31, esperava sozinho o bacurau que o levaria para casa. Pouco antes de conversar com o Diario, havia se refugiado num posto de combustível. Teve medo de ser assaltado. Diferentemente da grande maioria dos usuários do bacurau, Isllan não precisa ir até o terminal do Cais de Santa Rita. “Meu trabalho é na Manoel Borba (avenida), então, venho para a Conde da Boa Vista e espero o Candeias/Bacurau. Dentro do ônibus, nunca tive problemas e procuro sentar perto do cobrador”, afirma.




Esperar é um verbo comum a quem usa bacurau. Isso porque as linhas saem do terminal apenas de hora em hora. Segundo a diretora de Operações da Rodoviária Caxangá, Márcia Cavalcanti, empresa filiada ao Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros no Estado de Pernambuco (Urbana-PE), as linhas do bacurau funcionam mais com caráter social do que financeiro. “Lucro nessas linhas não existe”.




Segundo o diretor de Operações do Grande Recife, André Melibeu, o serviço de ônibus na madrugada foi criado para atender quem precisa do transporte público nesse horário. “É importante manter o serviço mesmo nos horários de baixa demanda de passageiros”, ressalta.

Amizades
Além dos passageiros, dezenas de motoristas e cobradores passam a noite em claro com a função de transportar quem está voltando para casa e ainda os colegas de profissão que irão começar a jornada muito cedo. Histórias de amizade e medo fazem parte do cotidiano deles. O cobrador Manoel Sebastião tem 51 anos e há um ano e quatro meses trabalha no horário do bacurau. “Gosto de rodar nesse horário. Apesar de que uma vez um camarada tentou me assaltar na primeira viagem. Como não tinha dinheiro na gaveta, ele queria levar o meu dinheiro. Mas, graças a Deus, o assalto não foi consumado”, diz.





Há quatro meses trabalhando na madrugada, o motorista Luís Azevedo, 43, guarda na memória as cenas das brigas, dos assaltos e o barulho que é obrigado a ouvir durante algumas viagens. “Tem o lado bom, que são as amizades que a gente faz com os passageiros. Sei até o nome de vários deles. Porém, a gente enfrenta algumas situações difíceis, também”, afirma. De acordo com o Grande Recife, as linhas do bacurau se concentram no Cais de Santa Rita por ele ser um local estratégico para a saída e a chegada dos coletivos. O consórcio diz ainda que não tem dados de vandalismo referente a esse horário.

Diário de Pernambuco

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